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nas nuvens

o blog da Catarina

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06
Nov17

Código postal

Querida Lisboa,

 

Cheguei ainda não era primavera, há oito anos. Parece incrível, parece que foi ontem, mas fiz as contas duas vezes e com a ajuda dos dedos das mãos. Oito anos, quase duas mãos cheias.

 

001.jpg

 

 

 

Vivi em muitas das tuas zonas, umas mais bonitas que outras, umas mais modernas que outras. Com melhores e piores vizinhos. Vivi até numa casa que tinha uma porteira, um luxo que julgo ser só teu, Lisboa. A porteira só trouxe chatices, falava demasiado, muitos mexericos, por isso não é a melhor das recordações. Mas é uma de muitas.

 

Algumas das recordações estão baças e sem cor, outras vívidas como nunca. Em alguns casos sei os cheiros, a cadência das rotinas, as caras e as cores do que me rodeava. 

 

Se tiver de escolher a casa favorita, escolho a que ficava perto do Marquês de Pombal. Naquela altura, ainda faltava muito para ter uma casa só para mim. Por isso tinha que viver e aprender a viver com as outras pessoas, e fi-lo durante mais de três anos. Ali vivi verdadeiras sagas: a saga da caneca desaparecida, a saga da sanita entupida, a saga da relação escandalosa que existia paredes meias comigo, a saga do barulho da caixa registadora do Mini-Preço em frente a casa. A saga da amizade, das descobertas de novas nacionalidades, novas comidas e novas formas de ver a vida. Guardo com imenso carinho tudo o que eu passei durante esses três anos e deles vieram comigo três amizades que me vão acompanhar, não importa o código postal. 

 

Antes e depois, vivi aqui e ali. Pelas contas dos dedos da mão, passei por cerca de sete ou oito casas. Já nem sei muito bem. Decorei e desaprendi dezenas de caminhos, de transportes, de lugares. Fiz, desfiz e voltei a fazer as minhas rotinas. 

 

A minha última casa em Lisboa foi a primeira casa do resto da minha vida. Agora tenho um novo código-postal, que vou demorar meses a decorar. E é bom, muito bom, este momento entre o velho e o novo onde estou agora. Prestes a refazer algo, a perder-me algumas vezes, e a voltar a dominar tudo. 

 

Numa conclusão melodramática, mudei-me de Lisboa oito anos depois, no outono. Ninguém deu por nada e, dentro em breve, nem mesmo eu darei grande importância a este facto. Afinal, a primavera acontece sempre. E seremos sempre amigas, querida Lisboa. 

 

Catarina 

 

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